Discordo que o governo – mais precisamente, o Executivo – seja o promotor primordial dos temas a serem debatidos na sociedade. Esta é uma das funções essenciais do parlamento. O parlamento é o foro para que, tanto a situação quanto a oposição a um governo possam propor e conduzir debates sobre quaisquer temas relevantes para o país. Pelo contrário, torna-se uma obrigação da oposição liderar os temas que considera importantes, sob pena de ser omissa; afinal de contas, se é oposição, é por não concordar com os rumos adotados. Logo, não vejo atenuante alguma na nossa mania de sermos reféns da agenda petista. Temos a culpa sim, mas nenhuma atenuante.
Os fatos são meus critérios na proposição, argumentação e defesa de idéias. Não as doutrinas. É um fato que a forte presença de impostos indiretos dos mais variados tipos, embutidos nos preços dos produtos de primeira necessidade que todos, ricos e pobres, consomem, pesa proporcionalmente mais a quem tem baixa renda do que a quem tem uma renda maior. Se, por exemplo, os sociais democratas, por doutrina fazem persistir, ou são condescendentes com, uma estrutura tributária nestes moldes, não tenho o menor receio em dizer que a Social Democracia está errada. Errada, inclusive, quanto aos seus próprios objetivos, que incluem a justiça social. E dou à justiça um significado de acordo com os parâmetros que defendi no meu último texto. Se os sociais democratas, por convicção doutrinária, afirmarem que o governante tem o direito de escolher como distribuir bem estar entre os membros da sociedade, não tenho o menor receio em dizer que a Social Democracia está errada. Os fatos mostram o fracasso, tanto moral, quanto material, das escolhas estatais de distribuição de bem estar entre os membros da sociedade. Os governos comunistas fizeram isto: Decidiram que bens seriam produzidos e qual sua distribuição entre as pessoas, decidiram como alocar os recursos privados, decidiram como balizar os talentos individuais, decidiram o grau de usufruto do patrimônio dos agentes sociais, etc. Os resultados são bem conhecidos. Apenas para refrescar a memória, falência econômica e barbárie política, entre outras coisas. Por isto, insisto tanto que, além de ser compatível com os conceitos sociais democratas, a noção de que o Estado deve se esforçar para sanar as patologias do ambiente, para que este seja fértil para o empreendedorismo individual , é o princípio que devemos claramente defender.
Quero reforçar um ponto. Sim, existe uma metodologia retórica petista. Porém, ela torna-se ineficaz sobre uma audiência crítica. Já argumentei bastante quanto a isto no texto anterior. E justamente por valorizar a educação como valorizo, e defendê-la como um direito fundamental do indivíduo, que lhe permite avaliar com o melhor grau de consciência e discernimento possíveis seus objetivos e comportamentos, é que me recuso a usar de "artifícios retóricos". Sim, sou pessoalmente responsável por minha decisão. Defendo a utilização de métodos de debate que sejam educativos. Não pretendo convencer; prefiro que as pessoas sejam capazes de discernir, conscientemente, a verdade. E, sim, assumo também a culpa, se eu falhar na tentativa de condução de um debate ponderado e equilibrado.
Dando um passo além, defendo também que a sociedade assuma os custos, tanto quanto os benefícios, de suas escolhas. Em suma, que a sociedade seja responsável por seus erros, e não apenas usufrua das recompensas dos acertos. Com isto quero dizer que, se apesar das tentativas, os debate lúcidos falharem e opções equivocadas (sejam quais forem elas) levarem a sociedade à crises, que assim seja. Para mim, ninguém tem o direito de ser messias ou guardião da sociedade; ninguém deve ter o poder de evitar que a sociedade erre. Ela tem o direito de errar e o dever de sofrer os efeitos, positivos ou negativos, destes erros. Crises são oportunidades de se ter a certeza de que se errou. Proteger a sociedade é violentar seu direito de aprender com os fatos.
Claro que impostos são necessários. Os impostos financiam os recursos que devem ser usados para fazer aquilo que chamo de manter o ambiente saudável e remover patologias. A arte do gestor público é encontrar o grau ótimo de apropriação dos recursos e renda nacionais, de modo a não violentar as potencialidades dos indivíduos. E lendo os dados do Tesouro Nacional e do Ministério do Planejamento, que mostram alta carga tributária, gastos correntes crescentes acompanhados da baixa qualidade dos serviços do Estado e pior índice de investimentos públicos da história do país, está claro que estamos longe da combinação adequada de tributação, despesas públicas e incentivo aos empreendedores privados.
Podemos, se for o caso, debater as idéias teóricas de economistas como Maria da Conceição Tavares ou Plínio de Arruda Sampaio ou mesmo de filósofos como Karl Marx. Comecemos pela Maria da Conceição Tavares, pois podemos ilustrar alguns pontos debatidos anteriormente. A professora Conceição Tavares participou da engenharia de planos econômicos heterodoxos baseados em controle de preços e salários. Participou da gestão do Plano Cruzado nos anos 1980, um plano típico da escola de pensamento ao qual pertence. O preço de um bem ou serviço produzido por uma firma e os preços de seus fatores de produção (o salário é o preço do fator de produção trabalho), são parâmetros analisados por ela, ao escolher o padrão de operação adequado para alcançar seu objetivo, a maximização de lucro (maximizar lucro é o objetivo da firma, para o horror dos petistas!). Quando o governo estabelece – e congela – um nível de preços e salários que ele julga ser o "justo", bem, aí acontecem algumas coisas bem interessantes. A primeira coisa é que "o feitiço volta-se contra o feiticeiro". No curto prazo, tudo parece ficar bem, pois os planos de produção, que dependem do fator fixo capital, só podem ser reformulados após um período de tempo. Mas, à medida que as firmas possam reagir ao novo ambiente, escolhem um padrão de produção "ótimo", dadas as novas circunstâncias. Como resultado, o novo padrão de produção converge para um nível que gera um excesso de demanda agregada (ou seja, falta produto para todos os que querem comprá-lo). Lembram-se dos pitorescos fenômenos da falta de bois no pasto ou do sumiço dos bens de consumo diário das prateleiras dos supermercados durante o Plano Cruzado? Ou então, estabelece-se, socialmente, uma espécie de mecanismo de burla de preços, para incentivar as firmas a atender a demanda, como por exemplo é o ágio dos preços. Lembram-se que os bois reapareceram nos pastos quando começou a surgir o famoso ágio dos preços das vaquinhas? Ou seja, o que seria uma intervenção bem intencionada do governo visando garantir um nível de bem estar social que ele escolhe como adequado, acaba gerando perda de satisfação para os consumidores. Mas a história não termina por aí. Em geral, os níveis escolhidos de preços de produtos das firmas e de salários dos trabalhadores fazem a firma escolher níveis de operação ineficientes. O nível escolhido pelo governo é aquele em que os salários devem ganhar valor relativamente aos preços dos produtos. Em suma, gera-se uma perda de eficiência alocativa geral na economia do país: os consumidores perdem bem estar e as firmas perdem eficiência produtiva. (Podemos estudar em detalhes este mecanismo de perda de eficiência alocativa em alguma reunião do grupo de estudos). Esta intervenção governamental no nível de preços e salários faz parte da doutrina econômica da escola ao qual pertence a professora. A vantagem do Plano Real foi que ele não interferiu na determinação de preços e salários: a URV apenas mediu os preços relativos na economia. Além disso, houve controle dos gastos do governo, o que permitiu uma redução de emissão da moeda que, por sua vez, evitou que o excesso de oferta monetária, associada à baixa produtividade dos fatores de produção das empresas, pressionasse a inflação. Isto sem falar na âncora cambial, que foi a coisa mais extravagante que o governo se permitiu fazer, mas que, no curto prazo, acabou funcionando como freio à inflação, pois tornou os preços externos competitivos com os preços internos. Todo este mecanismo é bem conhecido pelos chamados economistas ortodoxos, que a escola da Maria da Conceição Tavares sempre combateu. Lembram-se dela prevendo o fracasso do Plano Real?
Outro fenômeno interessante relaciona-se com o que se chama de 'expectativas racionais'. Vale a pena citar as 'expectativas racionais', pois é um fenômeno muito ilustrativo das limitações de eficiência das políticas públicas, sejam quais foram elas!!!!! Muito sinteticamente, ocorre o seguinte: Quando o governo escolhe uma política fiscal ou monetária qualquer (notem bem: qualquer!), os agentes econômicos avaliam todas as informações disponíveis (inclusive as incertezas associadas a elas) e então escolhem um curso de ação estratégico. Por exemplo, observam os movimentos passados do governo (se podem sustentar as decisões atuais), avaliam se os sinais de comportamento futuro são críveis, avaliam se as ações presentes do governo são consistentes com os anúncios que faz de metas a serem perseguidas. Ao fazer tais avaliações e ao escolher suas ações estratégicas, mudam o estado de coisas sobre os quais baseiavam-se as escolhas do próprio governo, de modo que o comportamento futuro da economia converge para um ponto diferente do planejado ser alcançado pelo governo, quando tomou sua decisão de política. (Os modelos de 'expectativas racionais' são outra coisa que poderíamos estudar em breve.) Para constar, os testes empíricos avalizam os modelos baseados 'expectativas racionais'. Estes modelos explicam fenômenos não tratáveis pelos modelos clássicos e keynesianos e corrigem problemas destes mesmos modelos. Por isto, considera-se que as teorias clássicas e teorias keynesianas – nas quais baseiam-se várias idéias da Maria Conceição Tavares – importantes como história do pensamento econômico, mas falhos como explicação rigorosa dos fenômenos macroeconômicos.
Abraço,
Luís Fernando.